sexta-feira, 12 de abril, 2024

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Escassez da água já afeta mais de 40% da população do planeta Terra

Estiagem não atinge só o Brasil, mas outros lugares do mundo. Veja as medidas que foram adotadas em países como EUA e Cingapura.
Por G1.GLOBO
| Atualizado em 30/11/-0001 às 00h00

 O Jornal da Globo, em parceria com o Globo Natureza, exibe, esta semana, uma série especial sobre a crise hídrica no mundo. A série “Água – Planeta em Crise”  vai mostrar de que maneira a seca está afetando populações em todo o planeta.

Quando a gente olha para os oceanos, para os rios e lagos, a Terra parece ter muita água. Quase três quartos da superfície são cobertos por oceanos. É o planeta azul visto do espaço.

Mas será que é isso tudo? Vejam a realidade: a camada de água dos oceanos é muito fina e, por isso, a quantidade de água é relativamente pequena. Se a Terra fosse do tamanho de uma bola de basquete, toda a água do planeta caberia dentro de uma bolinha de ping pong.

E mais: dessa bolinha de ping pong, quase tudo, 97,5% é água salgada. E, desse pouquinho que sobra, 70% é agua congelada nos polos e nas geleiras, 30% está debaixo da superfície da Terra e apenas 0,3% é água potável nos lagos e rios.

E essa água está mal distribuída. Sobra em algumas regiões e falta em outras. Some-se a isso o fato de várias regiões do mundo estarem passando por secas mais prolongadas.

SECA NA CALIFÓRNIA (EUA)

É o caso do estado da Califórnia, nos Estados Unidosx, que está entrando no quarto ano seguido de seca.

2013 foi o mais seco em 120 anos, diz o climatologista do governo, Michael Anderson. E ele prevê para este ano um novo recorde de pouca chuva e de temperaturas altas.

O nível dos reservatórios baixou. O lago Cachuma está com 26% da capacidade e, em outubro, pode deixar de fornecer água para a cidade de Santa Bárbara.

O governador do estado, Jerry Brown, acaba de tomar medidas drásticas: a redução obrigatória de 25% no consumo de água nas cidades e corte do fornecimento para fazendas que usam irrigação.

Tulare tem a agricultura mais produtiva da Califórnia. É uma região rica. As famílias de trabalhadores que vivem em casas modestas se abastecem de água em poços, mas os poços estão secando.

O poço da casa de Lala e Benjamin Luengas, da comunidade mexicana, secou em junho do ano passado. Foi um desespero. “O que vamos fazer, o que vamos fazer?”, Lala pergunta.

Eles não tinham US$ 25 mil para perfurar um poço profundo, ficaram seis meses sem uma gota d’água até que  receberam um pequeno reservatório da organização não governamental Self-Help Enterprises. A água chega de carro-pipa duas vezes por mês. É pouco. Lala economiza água na cozinha, reusa no banheiro e os banhos são curtos.

“No máximo entro, me molho, fecho a água, me ensaboo, abro e já saio”, conta Lala.

Paul Boyer, da Self-Help Enterprise, diz que o lençol de água subterrânea deveria ter subido nos primeiros meses do ano ficou estático. Para Boyer, a crise ainda vai piorar antes de melhorar.

CADÊ A ÁGUA NO NORDESTE?

A situação também pode piorar no Nordeste brasileiro. Em São Miguel (RN), cidade de 23 mil habitantes, ninguém recebe mais conta de água. É que a água encanada acabou em dezembro passado quando o açude secou. E não foi sem aviso.

“Desde 2013, quando a gente só estava com 10% da capacidade da água nós demos o grito, nós pedimos socorro”, diz Adalcina Vieira, presidente da Câmarax de Vereadores. O socorro não veio. A água só chega em carros-pipa, carroças, motos ou na mão.

Desde que a água encanada acabou, a cidade se movimenta basicamente em torno de um objetivo: conseguir água, vender e comprar água, transportar água, carregar balde d’água. E essa situação deve se manter por um bom tempo porque as autoridades locais não estão vendo uma solução de curto prazo.

“A situação de nossa cidade é muito difícil. É uma situação de colapso, uma situação de calamidade”, declara Dario Vieira, prefeito de São Miguel (RN).

Contratar um carro-pipa com 8 mil litros custa R$ 150. Quem não tem recursos depende das cacimbas da prefeitura.

“Essa caixinha de água aqui não dá nem para começar. Nesses dias nós vamos morrer de sede aqui se Deus não tiver misericórdia”, diz a dona Maria Lúcia da Silva.

É uma trabalheira. “Eu vou levar na mão”, mostra Sandra Leite Lopes, moradora da cidade. São cinco viagens da cacimba à casa dela para encher a caixa de mil litros.

Esse transtorno seria evitado se São Miguel não dependesse de apenas um açude, construído 60 anos atrás.

CRISE DOS RESERVATÓRIOS

A crise também bateu na porta da rica região Sudeste. Dos dois maiores reservatórios que atendem a Grande São Paulo, Cantareira e Alto Tietê, estão com níveis críticos. O Cantareira, o mais importante deles, entrou no volume morto em maio do ano passado e nunca mais saiu.

O presidente da Ana (Agência Nacional de Água) reconhece que o Brasil tem um nível muito baixo de água reservada e reclama que a legislação ambiental pouco flexível não ajuda.

“Porque, como um reservatório tem impacto ambiental, muitas vezes se abandona a discussão dos reservatórios por conta desses impactos ambientais e sociais. É verdade, eles existem. Agora a gente tem que, precisa colocar na outra coluna também, é a segurança hídrica que esses reservatórios propiciam”, diz Vicente Andreu Giullo, presidente da Ana (Agência Nacional de Água).

O EXEMPLO DE CINGAPURA

Cingapura não cometeu esse erro. Conservando água, uma ilha pequena que era pobre quando pertencia à Malásia, hoje é uma cidade-Estado rica e high tec. À época da independência, 50 anos atrás, a maior parte da água consumida em Cingapura era importada da Malásia, que fica lá do outro lado.

A gente pôde ver os dutos que hoje levam água, mas nas disputas políticas e econômicas entre os dois países autoridades da Malásia frequentemente exploravam essa dependência com ameaças de fechar a torneira.

Cingapura logo percebeu que precisava buscar a autossuficiência no abastecimento de água. Questão de vida ou morte.

A brasileira Luciane, há oito anos em Cingapura, só usa eletrodomésticos econômicos em água e energia. O jardim tem plantas que sobrevivem na seca e os dois filhos apreendem na escola a usar pouca água. Dá para comparar com o Brasil?

“Aqui a gente realmente tem mais consciência, o governo ele incentiva e eles até dão prêmios para as pessoas que ajudam a colocar mais ainda essa consciência na pessoa de que a água é importante e que você precisa economizar água”, conta a consultora Luciane Becker.

Papa Francisco, na recente Encíclica Laudato Si, fez um alerta contra o desperdício. O problema da água, disse ele, é, em parte, uma questão educativa e cultural.

Hoje a escassez de água afeta mais de 40% da população do nosso planeta, segundo a ONUx. Ela prevê que, até 2025, ou seja, em apenas dez anos, 1,8 bilhão de pessoas estarão vivendo em países ou regiões com absoluta escassez de água.

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